Conforme observa Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, entre as intervenções de baixo custo e alta acessibilidade disponíveis para melhorar o equilíbrio e reduzir o risco de quedas no idoso, uma das menos discutidas na prática clínica é também uma das mais antigas: o contato direto dos pés descalços com superfícies naturais como grama, areia e terra. Essa prática, conhecida em alguns contextos como grounding ou earthing, vai além do bem-estar subjetivo que muitos associam ao contato com a natureza e produz efeitos fisiológicos documentados sobre o sistema proprioceptivo, o equilíbrio postural e o estado emocional do idoso.
Aqui, você entenderá o que a ciência demonstra sobre essa prática e como incorporá-la ao cuidado geriátrico de forma segura.
O que é a propriocepção e por que ela declina com o envelhecimento?
A propriocepção é a capacidade do sistema nervoso de perceber a posição e o movimento do corpo no espaço por meio de receptores distribuídos em músculos, tendões, articulações e na pele. Esses receptores enviam continuamente informações ao cérebro sobre onde cada parte do corpo está, qual é sua velocidade de movimento e qual é a força aplicada sobre ela, permitindo ajustes posturais automáticos que mantêm o equilíbrio sem exigir atenção consciente.
Como detalha Yuri Silva Portela, o envelhecimento compromete progressivamente a densidade e a sensibilidade desses receptores, especialmente nos pés, região com maior concentração de terminações nervosas proprioceptivas. O idoso que perde sensibilidade plantar perde também a precisão dos ajustes posturais automáticos que previnem quedas, o que explica por que tantos idosos tropeçam em irregularidades mínimas do terreno que um adulto jovem nem perceberia.
O que o contato com superfícies irregulares faz com o sistema proprioceptivo?
Caminhar sobre superfícies regulares e planas, como pisos lisos de apartamento ou calçadas uniformes, oferece ao sistema proprioceptivo dos pés um estímulo extremamente empobrecido em comparação com as superfícies variadas sobre as quais os seres humanos evoluíram. Por outro lado, a grama irregular, a areia que cede sob o peso, a terra com suas pedrinhas e variações de textura e temperatura estimulam um número muito maior de receptores proprioceptivos simultaneamente, produzindo um treino sensorial que nenhuma superfície artificial consegue replicar com a mesma riqueza.

Na avaliação de Yuri Silva Portela, estudos com populações idosas que praticaram caminhadas regulares descalças em superfícies naturais demonstram melhora mensurável no equilíbrio estático e dinâmico, redução do tempo de reação postural e maior confiança durante a deambulação, com efeitos que se mantêm nas avaliações realizadas semanas após o término dos programas de intervenção. Esses resultados são atribuídos à reativação de circuitos proprioceptivos que o uso exclusivo de calçados em superfícies lisas havia progressivamente deixado em desuso.
Bem-estar emocional e o efeito do contato com a terra
Além dos benefícios proprioceptivos, o contato dos pés descalços com a terra produz efeitos sobre o bem-estar emocional que têm correlatos fisiológicos documentados. Estudos sobre o fenômeno do earthing demonstram que o contato direto com a superfície da terra permite a transferência de elétrons livres do solo para o organismo, produzindo efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios mensuráveis por meio de marcadores laboratoriais. Com efeito, a redução de marcadores inflamatórios como a proteína C reativa e a interleucina-6 após períodos regulares de contato com a terra tem implicações clínicas reais para o idoso que já convive com o inflammaging.
Conforme aponta Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, iniciativa que leva atendimento multidisciplinar gratuito a comunidades carentes em regiões de difícil acesso, há também uma dimensão psicológica nessa prática que não deve ser subestimada. Isso porque o contato com a natureza ativa respostas do sistema nervoso parassimpático associadas ao relaxamento, à redução do cortisol e à sensação de pertencimento a algo maior do que o ambiente doméstico fechado em que muitos idosos passam a maior parte de seu tempo. Para populações como as atendidas pelo projeto, que mantêm vínculos culturais profundos com a terra e com o ambiente natural, essa prática tem ainda uma dimensão de reconexão identitária com valor terapêutico específico.
Como implementar de forma segura no cuidado ao idoso?
A implementação do caminhar descalço no cuidado ao idoso exige algumas precauções específicas. Idosos diabéticos com neuropatia periférica apresentam risco aumentado de lesões nos pés, que podem não ser percebidas pela ausência de sensibilidade, tornando essa prática contraindicada sem supervisão médica. De fato, a escolha da superfície precisa ser cuidadosa: grama bem cuidada e limpa, areia de praia ou jardins domésticos sem objetos cortantes são opções seguras; terrenos desconhecidos, com possibilidade de vidros, pregos ou superfícies contaminadas, devem ser evitados.
Sob a perspectiva de Yuri Silva Portela, quando praticado com as precauções adequadas, o caminhar descalço em superfícies naturais é uma intervenção de custo zero, prazer genuíno e benefício fisiológico documentado que a medicina geriátrica poderia recomendar com muito mais frequência do que faz. Às vezes, o melhor equipamento de reabilitação é o chão que está sob os pés do idoso.