SPTrans confirma circulação de modelos elétricos com degraus entre os 500 veículos que chegam à frota paulistana neste mês.
São Paulo concentra cerca de 80% da frota nacional de ônibus elétricos e se prepara para receber, neste mês de junho de 2026, 500 novos ônibus elétricos, dos quais 104 articulados, o que elevará o número desse tipo de veículo para 1.759. A notícia parecia só positiva, mas ganhou outro tom depois que a SPTrans confirmou que vai permitir a circulação de modelos elétricos de piso alto, com degraus e elevadores, pela capital paulista, em especial os de 12,1 metros. A decisão gerou críticas imediatas, já que mesmo com elevadores, o piso alto não oferece acessibilidade plena a cadeirantes, idosos e pessoas com mobilidade reduzida. A dúvida que fica é simples: como conciliar o avanço da eletrificação com a promessa de um transporte cada vez mais acessível para todos? Diário do Transporte + 3
O que motivou a polêmica dos ônibus elétricos de piso alto
O questionamento veio durante a primeira reunião da Câmara Temática do Transporte Público do Conselho Municipal de Trânsito e Transporte da capital paulista, realizada em 17 de junho de 2026. Na ocasião, a SPTrans confirmou que dois modelos de piso alto estão em avaliação. Esses veículos serão permitidos apenas em exceções, nos locais onde trafegar com modelos de piso baixo for mais difícil. O problema apontado por especialistas em transporte é que, mesmo equipados com plataforma elevatória para cadeirantes, esses ônibus exigem degraus para os demais passageiros, o que vai na contramão do conceito de acessibilidade universal já praticado pela maior parte da frota. Diário do TransporteDiário do Transporte
A SPTrans também admitiu, durante a reunião, que apenas 3,6% das vias da cidade contam atualmente com algum tipo de prioridade para o transporte coletivo, o que ajuda a explicar por que a gestora considera necessário abrir exceções de modelo em certos trechos. Soma-se a isso o fato de que a idade média da frota da cidade chegou a 6 anos e 11 meses, uma das maiores da história, reflexo da dificuldade em substituir veículos a diesel na velocidade inicialmente planejada. Desde 17 de outubro de 2022, não podem mais ser comprados ônibus a diesel 0 km, e a idade máxima permitida da frota passou de 10 para 13 anos, podendo chegar a 14 anos no caso dos veículos menores. Diário do Transporte + 2
Os números da frota elétrica e os desafios da infraestrutura
Apesar da polêmica recente, os números da eletrificação em São Paulo continuam expressivos. A capital já soma mais de 1,2 mil ônibus elétricos, concentrando mais de 80% de toda a frota elétrica do país. Em todo o Brasil, porém, menos de 1% da frota de transporte coletivo ainda é movida a tração elétrica, o que mostra a distância entre a experiência paulistana e a realidade da maioria das cidades. Para especialistas do setor, o principal desafio em 2026 não é mais a aquisição dos veículos, e sim a infraestrutura de recarga, já que a demanda das garagens cresce mais rápido do que a capacidade das redes de energia locais. Prefeitura de São Paulo + 2
Para driblar esse gargalo, a Prefeitura de São Paulo implantou um sistema pioneiro de armazenamento de energia nas garagens, conhecido como BESS, que funciona como um powerbank gigante capaz de acumular energia em horários de menor consumo e recarregar as baterias dos ônibus de forma mais eficiente. A operação de um ônibus elétrico pode ser até 65% mais barata por quilômetro rodado do que a versão a diesel, o que ajuda a justificar os recursos liberados pela prefeitura em junho de 2026 para a compra de novos veículos. Mesmo assim, a meta original da gestão previa 2,6 mil ônibus elétricos até dezembro de 2024, número que só deve se aproximar da realidade com a chegada dos novos lotes em 2026. Prefeitura de São Paulo + 2
O que muda para o passageiro com a nova frota
Para quem pega o ônibus todos os dias, os modelos elétricos de piso baixo já entregues trazem ar-condicionado com saídas individuais, piso baixo com rampa de acessibilidade, tomadas USB, wi-fi e vidros com proteção contra raios UV, além de câmeras integradas ao sistema de monitoramento SmartSampa. Motoristas que já trabalham com a nova frota relatam mais conforto e menos cansaço ao final do turno, já que os veículos são mais silenciosos e não exigem troca de marcha. Esses ganhos se somam ao impacto ambiental: com a eletrificação, a capital deixa de consumir milhões de litros de diesel por ano, reduzindo de forma expressiva as emissões de CO2. Prefeitura de São Paulo + 2
É justamente nesse contraste que mora a dúvida levantada pela chegada dos modelos de piso alto. Enquanto a maior parte da frota elétrica se consolida como referência em conforto e acessibilidade, a exceção aberta para veículos com degraus mostra que a expansão rápida da eletrificação também enfrenta limites práticos, como a disponibilidade de modelos no mercado e a dificuldade de operar piso baixo em todos os trechos da cidade. Para usuários com mobilidade reduzida, a diferença entre um ônibus de piso baixo e um de piso alto, mesmo com elevador, pode significar mais tempo de espera e menos autonomia no dia a dia.
A frota elétrica de São Paulo segue como referência nacional em tecnologia e sustentabilidade, mas a permissão para ônibus de piso alto mostra que o avanço tecnológico nem sempre caminha junto com a acessibilidade plena. A SPTrans garante que esses modelos serão exceção, restritos a trechos onde o piso baixo enfrenta mais dificuldade operacional, mas o episódio reabre um debate antigo sobre quem fica de fora quando a cidade prioriza a velocidade da transição energética. Acompanhar como a gestora vai aplicar essas exceções na prática ajuda a entender se a mobilidade do futuro será, de fato, para todos.
Fontes:
- https://diariodotransporte.com.br/2026/06/18/exclusivo-sptrans-e-questionada-sobre-onibus-eletricos-de-piso-alto-confirma-500-para-domingo-e-admite-que-somente-36-das-vias-tem-alguma-prioridade/
- https://diariodotransporte.com.br/2026/06/13/sptrans-vai-permitir-onibus-eletrico-de-piso-alto-e-degraus-em-excecoes-dois-modelos-sao-avaliados-e-apesar-de-inclusao-de-layout-ainda-nao-estao-aprovados/
- https://prefeitura.sp.gov.br/w/cidade-de-s%C3%A3o-paulo-amplia-frota-el%C3%A9trica-com-mais-110-%C3%B4nibus-e-refor%C3%A7a-lideran%C3%A7a-nacional-no-transporte-sustent%C3%A1vel
- https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2025/12/7320280-mobilidade-urbana-no-brasil-em-2026.html
- https://www.metropolisc.com.br/2026/04/mobilidade-urbana-no-brasil-em-2026/
Autor: Diego Rodríguez Velázquez