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Tecnologia

Curitiba usa inteligência artificial para contar passageiros: como 261 câmeras podem mudar o transporte coletivo

Adrien Delcourt
Adrien Delcourt setembro 2, 2026
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7 Min de leitura
Curitiba usa inteligência artificial para contar passageiros: como 261 câmeras podem mudar o transporte coletivo
Curitiba usa inteligência artificial para contar passageiros: como 261 câmeras podem mudar o transporte coletivo
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Sistema de visão computacional transforma movimentação nos terminais em dados para planejar linhas, reduzir lotação e melhorar a operação.

Uma tecnologia que normalmente passa despercebida pelos passageiros começou a ganhar espaço no transporte coletivo da Região Metropolitana de Curitiba: câmeras capazes de contar automaticamente as pessoas que circulam pelos terminais. Desde 24 de agosto, 261 equipamentos foram instalados em 16 terminais metropolitanos para registrar embarques e desembarques e transformar essa movimentação em dados operacionais. A solução utiliza visão computacional e envia informações em tempo real para uma plataforma de sistemas inteligentes de transporte, permitindo cruzamentos com dados de bilhetagem e gestão da frota. A novidade levanta uma questão que interessa diretamente a quem depende de ônibus: câmeras dentro dos terminais podem realmente ajudar a diminuir a lotação e melhorar os horários? A resposta passa menos pela câmera em si e mais pela capacidade do sistema de transformar dados sobre passageiros em decisões concretas de operação.

Contents
Sistema de visão computacional transforma movimentação nos terminais em dados para planejar linhas, reduzir lotação e melhorar a operação.Como funciona a contagem automática de passageiros nos terminaisO que os dados podem mudar na rotina de quem pega ônibusTecnologia no transporte exige dados, privacidade e decisões melhores

Como funciona a contagem automática de passageiros nos terminais

O sistema implantado em Curitiba utiliza visão computacional para identificar e contabilizar a movimentação de passageiros nos terminais metropolitanos. Ao todo, são 261 câmeras distribuídas por 16 terminais, acompanhando fluxos de embarque e desembarque sem depender exclusivamente da contagem manual ou de estimativas baseadas apenas na bilhetagem. A tecnologia foi implementada pela Plenatech e integrada à plataforma de Intelligent Transport Systems (ITS) da Transdata, permitindo que os dados sejam processados e utilizados para compreender como o sistema está sendo ocupado ao longo do dia. O objetivo não é simplesmente saber quantas pessoas passaram por determinado local, mas produzir uma fotografia mais precisa da demanda do transporte coletivo.

Essa diferença é importante porque o número de passageiros transportados não revela sozinho onde estão os maiores problemas da operação. Uma linha pode registrar muitos usuários durante todo o dia, mas apresentar superlotação concentrada em determinados horários, enquanto outra pode ter veículos circulando com capacidade ociosa em períodos de menor movimento. Com informações mais detalhadas, gestores podem identificar horários de pico, comparar diferentes dias, observar mudanças de fluxo e dimensionar melhor a oferta de ônibus. Em uma região metropolitana que tinha população estimada em 3,72 milhões de habitantes em 2025, segundo o IBGE, qualquer ganho de precisão no planejamento pode representar uma diferença relevante para trabalhadores, estudantes e demais passageiros que dependem diariamente da integração entre municípios.

O que os dados podem mudar na rotina de quem pega ônibus

A principal promessa da tecnologia está na possibilidade de aproximar a oferta de ônibus da demanda real. Se os dados mostrarem que determinado terminal concentra uma quantidade elevada de passageiros em um intervalo específico, o gestor poderá ter elementos para avaliar reforços de frota, mudanças de horários ou ajustes na distribuição dos veículos. O mesmo raciocínio pode funcionar no sentido contrário: quando uma linha apresenta baixa utilização em determinados períodos, os dados podem ajudar a identificar oportunidades para redistribuir veículos sem prejudicar o atendimento. A tecnologia, portanto, não cria ônibus adicionais, mas pode melhorar a utilização dos veículos que já existem.

Outro aspecto relevante é a possibilidade de cruzar a contagem automática com informações de bilhetagem e gestão da frota. Isso permite comparar o que acontece fisicamente nos terminais com os registros do sistema de transporte, criando uma base mais ampla para tomada de decisões. Para o passageiro, o benefício potencial aparece em questões bastante concretas: menor tempo de espera, melhor distribuição dos veículos, redução de situações de superlotação e maior previsibilidade das viagens. Para empresas e profissionais, os dados podem contribuir para planejamento operacional, acompanhamento de desempenho e identificação de gargalos que seriam mais difíceis de perceber apenas pela observação cotidiana.

Tecnologia no transporte exige dados, privacidade e decisões melhores

A instalação das câmeras também mostra uma mudança importante na maneira como os sistemas de transporte podem ser administrados. Durante muito tempo, o planejamento dependia principalmente de pesquisas periódicas, informações de bilhetagem e conhecimento acumulado pelos operadores. Com sensores, câmeras e plataformas digitais, torna-se possível obter informações mais frequentes sobre a movimentação de pessoas e utilizar esses dados para ajustar a operação. O desafio passa a ser transformar o grande volume de informações em decisões rápidas e justificadas, evitando que a tecnologia seja instalada apenas para produzir números que não resultem em melhoria efetiva para o usuário.

Também existe uma questão que precisará acompanhar a expansão desse tipo de solução: privacidade. Contar passageiros por visão computacional não deve ser confundido automaticamente com identificar individualmente cada pessoa, e os objetivos, procedimentos e formas de tratamento das informações precisam ser compatíveis com as regras de proteção de dados. Para o usuário, transparência é fundamental: saber que existem câmeras é diferente de compreender quais informações são processadas, por quanto tempo permanecem armazenadas e para que finalidade são utilizadas. Quanto mais sistemas inteligentes forem incorporados ao transporte público, maior será a necessidade de governança, segurança digital e critérios claros para impedir usos incompatíveis com a finalidade do serviço.

O caso de Curitiba ajuda a mostrar que a transformação digital do transporte coletivo não acontece apenas quando chega um ônibus elétrico ou um novo aplicativo. Ela também ocorre nos bastidores, por meio de câmeras, sensores, bilhetagem integrada, telemetria e sistemas capazes de transformar a movimentação dos passageiros em informação operacional. A instalação de 261 câmeras em 16 terminais cria uma base inédita para observar a demanda em tempo real e pode ajudar gestores a entender melhor onde estão os gargalos da rede. Para o passageiro, entretanto, o verdadeiro teste da tecnologia será perceptível fora da tela: ônibus mais bem distribuídos, menos lotação, espera menor e viagens mais previsíveis. Se os dados forem utilizados dessa maneira, a inteligência do sistema poderá finalmente aparecer na experiência de quem está no ponto esperando o próximo ônibus.

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