Alfredo Moreira Filho elucida que boa parte do valor perdido em uma safra de cacau desaparece depois que o fruto já está colhido. Não some de uma vez, e é por isso que passa despercebido: some em pequenas frações, distribuídas por etapas que parecem secundárias.
Reduzir perdas no pós-colheita do cacau geralmente não requer grandes investimentos financeiros. O que realmente importa é a implementação de uma boa organização e métodos eficazes, que proporcionam intervenções de baixo custo e alto retorno, especialmente em pequenas e médias propriedades agrícolas. Os próximos pontos abordam as principais fontes de desperdício.
A perda que começa antes da quebra?
Alfredo pontua que o fruto colhido e deixado amontoado no campo por vários dias inicia processos internos que ninguém pediu. Em clima quente e úmido, isso acontece rápido. Sementes podem germinar dentro do fruto e amêndoas podem chegar ao cocho com fermentação desigual.
A correção é organizacional. Estabelecer um intervalo máximo entre colheita e quebra, e tratar esse intervalo como regra e não como meta, elimina a maior parte do problema. Propriedades que passaram a colher em dias fixos, alinhados à disponibilidade de mão de obra para a quebra, resolveram sozinhas uma variação que atribuíam ao clima.
Fermentação sem controle de temperatura
O segundo ponto de perda é a fermentação conduzida no escuro, em sentido literal e figurado. Sem termômetro, o produtor acompanha o processo pelo cheiro e pela aparência, o que funciona para quem tem décadas de prática e falha para todos os demais.
Massa insuficiente no cocho não atinge temperatura adequada. Revolvimento irregular gera bolsões com estágios diferentes no mesmo lote. Um termômetro simples e uma ficha de anotação custam pouco e transformam a etapa em processo observável, mudança que Alfredo Moreira destaca como decisiva em operações sem equipe técnica dedicada. O que não se mede na fermentação aparece depois como percentual de amêndoas ardósias, aquelas que não completaram as reações internas e derrubam a classificação do lote.
Secagem acelerada e umidade fora do ponto
Pressa na secagem é uma das perdas mais caras e mais frequentes. Elevar demais a temperatura para ganhar tempo trava reações que ainda ocorriam e fixa acidez indesejada na amêndoa.
O oposto também custa. Secagem interrompida por chuva, sem cobertura adequada, devolve umidade ao lote e abre caminho para fungos. Alfredo ressalta que a umidade final precisa ficar na faixa recomendada para armazenamento, próxima de sete a oito por cento, e essa verificação não pode depender apenas do tato. Amêndoa mais úmida pesa mais na balança e vale menos no contrato, quando não é rejeitada.
Armazenamento, o ponto em que a perda volta a crescer
Depois de seco, o lote parece seguro. É uma ilusão comum. Armazém sem ventilação, contato direto com o piso, proximidade de combustível ou de defensivos e ataque de insetos degradam em semanas o que levou meses para ser construído.
Alfredo Moreira Filho aponta que o armazenamento é a etapa em que o produtor mais subestima o risco, porque nele o produto não muda de aparência enquanto perde qualidade. Sacaria adequada, estrado, ventilação e inspeção periódica resolvem quase tudo. Nenhuma dessas medidas exige capital relevante, apenas rotina definida.
Contabilizar a perda é o que a torna gerenciável
O problema central não é técnico. É que a perda de pós-colheita quase nunca é contabilizada. Ela aparece diluída em um preço recebido abaixo do esperado, atribuído ao mercado, ao comprador ou à sorte.
Quando o produtor passa a registrar quantos quilos entraram no cocho e quantos saíram classificados em cada categoria, o desperdício ganha número. E número muda comportamento de uma forma que recomendação nenhuma consegue. A perda invisível é aceita indefinidamente; a perda medida costuma durar uma safra.